Bem vindos a 1984
Há anos que na minha cabeça, assim como uma tarefa de background, paira esta questão:
Como é possível que alguém que leu o livro do Orwell 1984 viu lá escrito como deveria o mundo ser?
A ideia daquele mundo anda por ai, a novilíngua como instrumento de pensamento único e o cancelamento como punição para quem transgrida.
Agora deveremos dizer género e não sexo, referir os pais por progenitores, homens e mulheres em vez de Homens, em etnias em vez de brancos, pretos, ciganos, amarelos vermelhos ou qualquer outra coisa, e mais um conjunto de patacoadas para redefinir a linguagem. O caso supremo é de "as pessoas que menstruam", que além de ser só por si pouco estético, restringe o universo. Uma mulher depois menopausa o que passa a ser?
A ideia é mesmo essa, restringir. Restringir para dominar. Quem domina a língua domina o mundo (falarmos todos inglês é uma cousa ou consequência? Já falamos latim, francês espanhol e até português). Tal como a novilíngua que não tinha sinónimos nem antónimos, para não ser possível pensar, esta novi-novilíngua, pretende redefinir, ela também, um quadro de pensamento, em que, por ironia uma minoria dita as regras em nome de outras minorias. Quem desobedece ao pensamento único é "Cancelado", profundamente orwelliano.
Estas ideias não estão a ser impostas num regime ditatorial ou sem liberdade, que poderá não ser o mesmo mas um contem o outro, não está a vir do povo, como quase nenhuma revolução, embora sempre se queria fazer parecer que sim. Não está a ser construído nas universidades americanas por intelectuais que estão plenamente conscientes e são consequentes com o que fazem.
Mas, com a revolução não se faz sem o povo, nem sem comunicação, já agora, são usadas as redes sociais, os media os jornais para propagar as ideias.
Estaria tudo bem, deveremos aceitar essa liberdade, o que não devemos aceitar é o terror. O terror de chamar maricas ou preto ou qualquer palavra dessas proibidas e haver um exercito bem comandado que ataca em matinha esse alguém.
Não tenho nada contra brancos, pretos gays lésbicas, ou trans, como Dave Chappelle lembra com o seu humor caustico: alguém que corta a pila tem que acreditar no que faz, mas também não tenho nada a favor. São gente, com as suas virtudes e defeitos, uns melhores outros piores.
O que me sobressalta é como esta nova inquisição no está a cariciar a liberdade.
Esta nova caverna de Platão, construída com a censura de livros, obras de arte, Homens proscritos, meu Deus, em quem não creio, pode conduzir-nos a ver só as sombras.
Por vezes penso que talvez Pessoa, quando se metamorfoseava em Caeiro tivesse razão:
Em pleno! A narrativa de alguém que ousa, sem pudores, manifestar o seu pensamento. As narrativas são quase sempre monólogos que ficariam enriquecidos com diálogos abertos
ResponderEliminarTotalmente de acordo! Há um filme onde esta distopia é levada a um extremo muito próximo daquele que está em construção nestes dias que têm ar de "fim de época"! Recomendo "Farenheit 375"... Para não fazer spoilers, só tenho a dizer que fui surpreendido de uma forma assustadora.....e que vai na linha deste blog
ResponderEliminarA questão, parece-me, é que devemos partir da premissa que efectivamente vemos só sombras. A verdade em si não está ao alcance de um único olhar. Conseguimos uma aproximação de uma qualquer verdade através do diálogo, na união de diversas perspectivas. No entanto, não há tempo nem sequer vontade de "agir reagir" para crescer num pensamento comum, sustentado, equilibrado. Paul Virilio analisou e antecipou a "tirania da velocidade", a incapacidade de gestão do tempo humano e do tempo tecnológico. É humanamente impossível corresponder a um tempo máquina. A decisão exige-se imediata e vazia de qualquer reflexão. Esta algazarra cibernética, global, esvazia-nos de qualquer construção de pensamento. Parabéns, vizinho, por este espaço de saudável acção reacção!
ResponderEliminar